Belchior: abraços e canções

WhatsApp Image 2020-04-30 at 17.43.48Três anos de saudades, muitas histórias contadas e tantas outras que virão.

Abraços e canções, essa era a frase que Belchior gostava de escrever em seus autógrafos, que logo vinha seguida da grafia do seu nome, reconhecida em todo o país: Belchior. Nada mais significativo e representava tanto nosso eterno rapaz latino-americano. Abraços e canções. Abraços de corpos suados, de sensualidade, de beijos molhados, de camaradagem, de atenção, de generosidade com os e as fãs sem nenhuma discriminação. Canções, essa magia fantástica que penetra logo cedo a alma do nosso bardo, quer seja pelas ondas do rádio, pelo som das orquestras, ou no cinema, ode aquele feixe de luz e a fumaça azul faziam a cabeça de um cara do interior. Sim, do sertão, da sua, da minha, da nossa solidão. Aquele em que o guarda examinando o “3×4” da fotografia sorria, estranhando o lugar de onde muitas e muitos de nós saímos, dando ao Brasil nosso trabalho quase escravo, recebendo do Brasil muito menos que o merecido.

O interior ficou pequeno, nosso passarinho urbano já ganhava outros ares, era uma vez um cara do interior. A capital da província e o mar, que deslumbre! Eu vou ficar nessa cidade, não vou voltar para o sertão, o papo, o som dentro das noites. Mas a mente inquieta queria desvendar mais ainda o universo da mente, das pessoas, da solidão dessas nessas capitais. A filosofia, por caminhos sagrados, foi alcançada em um mosteiro, onde dentre outras coisas boas da vida, segundo o nosso próprio bardo, trovador eletrônico, se encontra algumas coisas boas da vida, dentre elas, o vinho, que mata a sede do corpo e da alma. Aquele universo ficou pequeno e a disputa eterna em sua alma, entre o “interior, interior, interior” e o movimento do tráfego, e das multidões sem rostos definidos, era vencida pela segunda. Agora, novos desafios, ser ou não ser, ou seria ter ou não ter?

Eternamente estudante, até parece que foi ontem. O diploma de sofrer de outra universidade, diploma que nunca veio. Vida, vida sua adolescente companheira, para que escola mais profunda, radical e demasiadamente humana? Mesmo assim, a medicina, tempos agitados de movimento estudantil, repressão, mas também loucura, chiclete e som. Logo, logo, mais uma decisão difícil. O violão ou o bisturi? A dúvida durou pouco, as palavras poéticas já esboçadas e de uma força cortante, como uma canção a palo seco, só com a força da voz, como lâmina já se fazia presente, não só no Bar do Anísio ou nos pátios da faculdade de medicina, nas calouradas, programas de auditório, em rádios e TVs da capital cearense ou onde mais pudesse cantar, onde houvesse espaço, tempo e algum modo de dizer não, tão necessário naqueles dias, como nos de hoje.

Com o pessoal, a capital da província já estava pequena para a sua fúria, sons, sonhos e pressa de viver. Cair no Sul, grande cidade, era o desejo, abrir os braços no Corcovado e gritar, na eletricidade daquelas cidades tão pesadas, mas não tanto quanto seu corpo e desejos, aqueles que a cabeça pensa e não que a alma deseja. E disso Newton já sabia. Ganhar o mundo, andar caminho errado, pela simples alegria de ser. Libertar a alma, o corpo e o espírito, coração, cabeça e estômago. Andar na noite, cantar nas noites dos cabarés e, claro, sucesso. O que é isso mesmo? Sucesso, grana e fama, são o meu tesão, entre os bárbaros da feira ser um reles conformista, nenhum supermercado satisfaz meu coração. É a honra, a glória, esta, sim, nos move, esta, sim, nos faz só um pouquinho abaixo dos anjos que Deus criou. Mas vida pisa devagar, morrer jovem, punhal de amor traído, não farei isso só para agradar o público, quero que a minha voz saia no carro e no altofalante. E Saiu.

A voz de Belchior, sua poesia, sua palavra cantada, como gostava de dizer, além da sua voz inigualável, ganhou o mundo em outras vozes. Grandes nomes da nossa música, dentre elas e elas Roberto, Elis, Jair, Jessé, Fagner, Ednardo, Erasmo, Los Hermanos, Engenheiros, Antonio Marcos, Vanusa, Gigliola Cinquetti, Daíra, Osvaldo, Nelson Gonçalves. Foram discos extraordinários, maravilhosos, alucinantes, alucinações musicais, canções atemporais, hinos de várias gerações. Sem querer entrar em uma disputa, mesmo entre seus parceiros de estrada, quem dera fosse um Chico, um Gil, um Caetano. E mesmo não sendo um queridinho da grande mídia, mesmo dos seus cadernos B, nosso rapaz latino seguiu seu caminho. É caminhando que faz o caminho, brincou de viver e nos brindou com uma das obras em língua portuguesa que mergulha no que há de mais radical, profundo da alma humana, seus dramas, prazeres, alegrias e perspectivas. Os caminhos certos ou errados de ontem ou mais recente é o que menos importa. O que realmente importa é que o ontem era jovem e novo hoje é antigo, e precisamos sempre rejuvenescer, pois amar e mudar as coisas, ontem, hoje e sempre deve nos interessar muito, muito mais.

Ainda como uma mina inexplorada, parte da obra de Belchior está aí para ser revisitada, conhecida e interpretada, milhares de vezes, por vários ângulos. Há três anos seu corpo voltou a terra. Sua alma ganhou mais ainda as alturas. Como um passarinho urbano e ao mesmo tempo uma ave do sertão, hoje, Belchior é desenhado, cantado, declamado e sendo reconhecido pelas novas e antigas gerações. Não foi nessa de morrer só para agradar, para se tornar lido e corrido. Gênio, mas não imortal de corpo. Sua alma não, esta se eterniza a cada dia quando sua canção rompe o que parece secreto, misterioso, conformado. Palavras, sons, a alegria de viver, a festa, a manutenção da eternidade da juventude, é o que importa. Abraços e canções, sempre existirão, sendo assim, Belchior também será eterno.

Belchior talvez tenha sido um dos artistas (cantores) que mais fez shows no país. Tinha uma agenda cheia. Não havia lugar ruim para suas apresentações. Clubes grandes e pequenos, casas noturnas, atos do 1º de Maio, no meio da rua. Como canta outro poeta, literalmente sempre esteve onde o povo estava. No entanto, e sem viver se lamentado, nosso rapaz latino, na opinião do missivista de mal traçadas linhas, merecia um maior reconhecimento da província. Um reconhecimento que, durante a gestão Fortaleza Bela, capitaneada pela então prefeita Luizianne Lins, amante e incentivadora da cultura em suas mais variadas manifestações, nosso trovador sempre teve o devido reconhecimento.
Vários aniversários da cidade, festivais de férias, exposições, enfim, nosso grande poeta sempre foi presença marcante na cidade que tanto amava. O sobralense cidadão do mundo, inclusive, se tornou cidadão de Fortaleza. Título outorgado e celebrado com maravilhosas e marcantes comemorações que tiveram amplo apoio da gestão Fortaleza Bela.

Antonio Carlos de Freitas Souza

Professor de Filosofia e livre estudioso da vida e obra de Belchior.

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