“Fortaleza: a cidade do meu coração, da minha vida”, afirma Luizianne

Em alusão aos 299 anos de Fortaleza, completados no último dia 13 de abril, a deputada federal e ex-prefeita da capital, Luizianne Lins (PT/CE), concedeu entrevista ao Jornal O Povo. Ela destacou o que Fortaleza significa para a sua vida, os desafios que enfrentou durante sua gestão e, em especial, assinalou o legado deixado para o povo da cidade, em especial aqueles e aquelas que mais precisam.

Confira:

m 2004, a senhora foi eleita prefeita de Fortaleza, a segunda mulher a ocupar o cargo. O que representou, para a senhora, vencer aquela eleição como mulher, militante de esquerda e oriunda dos movimentos estudantis?

A eleição de 2004 para a Prefeitura de Fortaleza ainda hoje é considerada um marco na história do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras na capital cearense, ao lado da eleição da companheira Maria Luiza Fontenele, em 1985. Ter sido eleita prefeita, mulher, à época com apenas 35 anos de idade, foi a culminância de toda uma trajetória dedicada à luta nos movimentos sociais, estudantil, sindical, cultural e de mulheres. Uma trajetória dedicada também à construção do PT e de um projeto socialista de pessoas livres e iguais. Ressalto aqui que fui a primeira secretária de Juventude e a primeira secretária de Mulheres eleita nas instâncias internas do PT Ceará, do qual, posteriormente, fui presidente, bem como também presidente do PT Fortaleza. Para mim, o PT nunca foi um partido qualquer, mas, acima de tudo, é um instrumento de luta da classe trabalhadora brasileira. Pelo partido fui vereadora eleita duas vezes, sendo a candidata do PT mais votada. Fui ainda deputada estadual, quando presidi a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa. E, em 2004, aceitei a missão do nosso coletivo de ser candidata à Prefeitura. Saímos de 2% nas pesquisas de intenção de voto para a vitória contra o então candidato da direita. Eu, mulher, de esquerda, nascida e criada na periferia de Fortaleza, chegando, pela vontade do nosso povo, ao maior cargo público da capital. Foi, realmente, um feito histórico. Foi o início de uma revolução política, social, econômica e cultural que nossa gestão fez na cidade, ainda hoje lembrada e reconhecida pela maioria do povo de Fortaleza. Estou hoje deputada federal e a nossa luta pela classe trabalhadora segue firme e prioritária na Câmara dos Deputados, tendo presidido a Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial desta casa em 2023.

Como era a Fortaleza que a senhora encontrou ao assumir a gestão? Quais eram os principais desafios sociais e urbanos naquele momento?

Fortaleza é uma das cidades mais adensadas do Brasil, com uma desigualdade social que também está entre as maiores do país. Encontramos uma cidade que, a despeito de ser a quarta capital brasileira em população naquele momento, ainda tinha um sistema rudimentar e precário na execução de políticas públicas, já avançadas em muitas cidades brasileiras. Para se ter uma ideia, a maioria dos servidores e funcionários da Prefeitura sequer tinha contato com a tecnologia na automatização de processos para garantir eficiência. Para dar essas respostas ao cidadão, criamos, por exemplo, as Praças do Povo, para que a população tivesse acesso a serviços públicos de forma mais rápida. Encontramos muitos desafios, mas também tínhamos a vontade e força para buscar projetos, políticas públicas, ações que mitigassem esse grave problema socioeconômico. Invertemos prioridades. Buscamos, sobretudo, melhorar a vida do povo que mais precisa, aqueles e aquelas que, geralmente, são esquecidos pelo poder público. Encontramos uma dívida de curto prazo, restos a pagar, que, atualizados para hoje, perfaziam cerca de R$ 1 bilhão, pressionando o caixa da prefeitura. Não existiam políticas sociais para mulheres, negros, LGBTQIAPN+ e outras. Criamos as secretarias de Turismo, Esporte, Assistência Social, Direitos Humanos e Cultura, além da secretaria do Centro.
Fizemos mudanças significativas na administração do transporte público municipal, especialmente com a transição da Ettusa para a Etufor, tornando a gestão de transportes do município totalmente pública. Encontramos a Defesa Civil completamente desestruturada. Promovemos a reestruturação e ampliação do órgão durante a nossa gestão, com a criação de núcleos comunitários e execução de ações que reduziram áreas de risco e preveniram fatalidades.Todas as creches conveniadas estavam fechadas, os postos de saúde tinham grades no atendimento, muitas áreas de risco, muita deficiência na habitação popular. Não tinha Orçamento Participativo e o direito à cidade foi esquecido. Nem tinham eventos populares que colocaram Fortaleza como vitrine da cultura nacional.

Não tenho a menor dúvida de afirmar que nossa gestão fez uma revolução em políticas públicas para cuidar mais da nossa gente.

Quais foram, na sua visão, os principais marcos da sua gestão? Há políticas ou projetos dos quais a senhora se orgulha especialmente?

O nosso governo teve um caráter extremamente popular e inovador. Então, pelo fato de conhecer muito bem a cidade, quando cheguei ao governo, a primeira coisa era buscar uma cidade mais igualitária. O poder público teria que fazer a diferença na vida das pessoas que tinham menos condição financeira porque a cidade é para todos e para todas. E destaco entre essas políticas inovadoras os CUCAs, os Centros Urbanos de Cultura, Arte, Ciência e Esporte, o Hospital da Mulher de Fortaleza, as Praças do Povo, as Praças da Juventude, a revitalização da Praia de Iracema. Assinalo, em especial o Vila do Mar, à época o maior projeto de urbanização da América Latina, com mais de cinco quilômetros. Foi um governo que, além de tudo, olhou para a saúde pública porque a gente tinha todo o cuidado do mundo, a preciosidade, a delicadeza. Nós tínhamos postos de saúde funcionando, inclusive, no horário noturno e fins de semana, porque doença não tem hora. Fizemos um investimento muito grande no Instituto José Frota. Inclusive, desprivatizando o último andar, hoje o setor de queimados, que era privativo para quem tinha plano de saúde. Foram muitas as iniciativas concretas que mudaram, radicalmente, a vida do nosso povo.

Fortaleza está prestes a completar 299 anos. O que essa cidade representa na sua vida e trajetória política?

Vou falar de uma cidade onde nasci e fui criada. Nasci na periferia de Fortaleza, no bairro do Mondubim, e tive uma infância absolutamente feliz, entre árvores, animais, entre as pessoas, perto da estação de trem e da Igrejinha do Mondubim, tombada no nosso governo. Então, eu tive uma infância cercada por lagoas. Eu transitava pela Lagoa da Parangaba, Lagoa da Maraponga e Lagoa do Mondubim, onde a gente fez um CUCA. Eu conheço cada cantinho dessa cidade, até porque nasci na periferia. Hoje, posso dizer que conheço Fortaleza como ninguém. Continuo querendo o melhor para Fortaleza e a gente espera que os poderes públicos e o povo façam a sua parte para que possamos ter uma cidade cada vez melhor para se viver. Como a gente costumava dizer durante o nosso governo, uma cidade que seja boa para todo mundo porque a cidade só é boa para o turista quando é boa para quem vive aqui. Portanto, Fortaleza, feliz aniversário, a cidade do meu coração, da minha vida.

Que legado a senhora acredita ter deixado para Fortaleza, tanto do ponto de vista administrativo quanto simbólico?

Deixamos obras emblemáticas: CUCAs, Hospital da Mulher, Vila do Mar, Praças do Povo, Praças da Juventude, Escolas Padrão MEC, fardamento completo com mochila e agenda para todos os nossos alunos e alunas. Destaco a merenda escolar de qualidade em todas as escolas e creches; a limpeza urbana e o cuidado com a cidade. Fomos referência na limpeza urbana, uma das políticas mais bem avaliadas pela população. Implantamos a tarifa social aos domingos e consolidamos a meia passagem em Fortaleza, com a distribuição gratuita das carteiras estudantis pela rede pública municipal nas instituições públicas de educação. Criamos a secretaria de Direitos Humanos, com ênfase nas políticas para pessoas com deficiência, igualdade racial, diversidade, idosos, mulheres e juventudes. Uma grande inovação, pois nenhum desses setores tinha ainda representatividade dentro do poder público municipal. Colocamos em funcionamento todas as creches da cidade, que estavam fechadas; implantamos o Orçamento Participativo, mecanismo revolucionário de participação efetiva do povo nas decisões do governo; garantimos a passagem de ônibus mais barata do Brasil e a gratuidade para pessoas com deficiência; reformamos todo o estádio Presidente Vargas, o PV. Aprovamos 17 planos de cargos, carreiras e salários para os servidores municipais, com valorização e ganho real todos os anos. Implantamos uma política cultural que até hoje é referência, pois pensamos a cultura como fator de crescimento socioecômico, desenvolvimento social e inclusão. Destaco a criação dos editais públicos de fomento a projetos culturais, além da criação de um sistema de cultura inclusivo e participativo, fortalecendo a identidade cultural de Fortaleza e promovendo o acesso democrático às manifestações artísticas e culturais; fruição e circulação das expressões artísticas; formação de agentes culturais e estímulo ao desenvolvimento da economia criativa e do mercado de trabalho no setor. Revitalizamos o Carnaval e criamos o Pré-Carnaval, o Réveillon da Paz, o São João e as comemorações do Aniversário de Fortaleza.
Também criamos a Vila das Artes, com o objetivo de promover a formação e difusão artística na cidade. Localizada no histórico casarão do Barão de Camocim, no Centro, a Vila das Artes abrigava diversas escolas e núcleos dedicados a diferentes linguagens artísticas, incluindo audiovisual, dança e artes visuais.
Nós tínhamos uma série de políticas de inclusão, inovadoras. Inovadoras porque nós pensamos a cidade na sua totalidade.
Nossa gestão dialogou e buscou as delicadezas da cidade; a sensibilidade de Fortaleza. Então, eu tenho muita alegria e muito orgulho de viver nessa cidade, ter sido prefeita e ter feito o melhor que eu pude para o meu povo. Por tudo isso, sou muito grata ao povo de Fortaleza por ter sido a deputada mais votada da cidade nas últimas eleições de que participei.

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